42k em 42 anos

Foto: Daniela Gianelli

 

Buenos Aires, 9 de outubro de 2016
7h25 da manhã. Temperatura de 7,6ºC. Um medo apertado mas agora era ir. Faltavam 5 minutos para a largada da maratona.
42k em 42 anos é uma alusão à idade que tenho atualmente e o desejo de fazer os 42k aos 42 anos. 7h30 e é dada a largada que deu-se de uma forma impressionantemente tranquila (o fato de ser uma prova onde só havia a distância da maratona impediu o efeito do estouro de manada). Fiquei socado no meio de milhares de corredores e meu pace no primeiro minuto foi de 7:05 mas me mantive tranquilo. A compactação de corredores no entanto me preocupou por volta do quinto minuto. Precisava me desvencilhar do restante para não prejudicar muito meu tempo final (embora eu não tivesse certeza de que conseguiria). Fui para a calçada e consegui desenvolver um pouco mais de velocidade e a mantive sem maiores problemas até o k 7.8 onde havia uma subida razoável para uma maratona praticamente plana. Até mesmo pelo fato de ser muito no início da prova e sequer senti esforço para vencer esse trecho.
Alguns poucos metros passava ao lado do Obelisco da cidade. Um ponto turístico em uma rua com um ar que mistura a av. Paulista com as imediações do Ibirapuera. Gente nas ruas incentivando e eu pensei que tinha que curtir muito aquele momento, pois ainda havia muitos quilômetros pela frente para sentir a dureza da prova. A primeira por sinal já me incomodava. Consegui chegar ao ponto de largada 7h15. A vontade de urinar foi vencida pelas gigantescas filas para os banheiros químicos. Acreditei erroneamente que ela passaria e por volta do k 15 ela realmente começou a me incomodar. O que piorava a cada posto de hidratação onde bebia um pouco de água (por uma série de razões que outrora posso comentar, bebo bem mais água, isotônico ou o que for durante as provas).
Entre os k 18 e 19, adentramos um bairro bem simples de Buenos Aires e passando em frente ao estádio do Boca Juniors alguém grita “dale River”. Lá como cá torcedores do Boca em resposta começaram a cantar alguma música do Boca.
Um pouco depois do k 19, adentrávamos um setor portuário e a essa altura eu já pensava em ter que parar para urinar até em que passei por mais um “Dj point”. Eram dj’s distribuídos durante a prova para dar aquele gás nos corredores com o som. Tocava “Sympathy for the devil” dos Stones e me perdoe meu Deus, mas o diabo me deu uma força com essa música que até esqueci momentaneamente a vontade de ir ao banheiro.
No k 21, onde temos o que seria a distância da meia maratona, um relógio que mostrava que eu estava dentro do tempo previsto (muito no limite pelos minutos iniciais perdidos, mas estava), mas o tempo começa a correr de mim (e não comigo) no k 24 quando a vontade de urinar já se fazia em forma de dor, afinal, continuava minha tática de hidratação e cada gole era um desconforto. Eu tinha que decidir se parava para ida ao banheiro e perdia alguns segundos ou se eu comprometia toda a prova não sabendo como responderia o meu corpo com mais 18k segurando essa vontade.
Dei uma saída para uma rua lateral e perderia alguns segundos, mas simplesmente não parava mais. Deve ter sido quase um minuto e vendo a multidão ir embora. A tal multidão era ainda muito compacta e perdi o contato das pessoas que corriam comigo por quilômetros mas se por um lado, perdi talvez um minuto, parece que voltei sem um peso (literal) e essa descansada me vez correr bem mais confortável por vários quilômetros.
A coisa começou a pesar mesmo depois do k 30. Não só pelo tal “paredão” do qual na verdade eu já nem estava mais preocupado com minha parada para o banheiro, como pelo fato que pegamos um vento que inicialmente pensei ser só minhas forças se esvaindo, mas soube que o vencedor do ano ano passado com 2h12 foi o mesmo desse ano que chegou reclamando do vento que lhe empurrava. Esse ano ele fez 2h30. O sol abriu pesado contrário as previsões do tempo e já era possível ver o desconforto na face de muitas pessoas, gente caminhando, mancando. Eu tive que me concentrar muito pois naquele momento, era puro sofrimento e tínhamos uma subida considerável de um viaduto no k 36 e ele foi quase mortal. Tanto que eu praticamente trotei por quase um quilômetro ao seu término. Já começava a fazer contagem regressiva. Os trechos mais difíceis haviam sido superados. Avistei então uma pessoa na minha frente caminhando com um rosto de quem não sabia se continuava ou desistia. Por essas grandes coincidências da vida, ele estava com a camisa de meu time e antes de chegar nele cantei o primeiro estrofe do hino, ele cantou o segundo e começou a correr novamente, cantei o terceiro e do quarto para frente cantamos juntos até o fim. Chegamos em um pequeno declíve e ele chorando me agradeceu. Esse pequeno declíve subia de volta logo após passar por um viaduto. Eu acho que só continuei para dar forças para ele que começou a chorar novamente e caminhar e me despedi dele falando que só faltava 4k e que agora seria plano e que ele não parasse. Ele concordou com a cabeça e fui para 2k infernais…
Ajudar esse corredor me ajudou e muito. Se de alguma forma se isso chegar em você, saiba que me ajudou muito. Depois foi terrível chegar ao k 40. Eu que nunca havia chegado nessa distância vibrei muito mentalmente e não pararia mais de forma alguma. k 41. Já estava dentro do parque de volta. Meu marcador já contava os 42k que viraram quase 43k no de muita gente mas eu estava impressionantemente inteiro. Ao longe eu pensava ver a chegada com luzes verdes piscando que era uma ambulância. Depois disso, com os olhos fixos para frente eu tomo um susto, uma voz familiar do meu lado gritando “Vai, vai. não para, está bem ali, você conseguiu”. Era a minha mulher que pegou em minha mão e correu uns 800 metros comigo. Dei um beijo nela e todo mundo em volta vibrou e aplaudiu. Disso também nunca me esquecerei e ela de calça comprida chegou cansada. Ela imaginou que eu chegaria mais lento, mas fiz meu último k com pace de 5’16” embora tenha sido a adrenalina e energia do final. O tal do sprint final, pois meu rendimento já estava abaixo disso.
Cheguei, chorei, agradeci e embora não tivesse de forma alguma arrependido, queria ver como meu corpo reagiria para ver se vale a pena continuar nessa.
Como já escrevi anteriormente, tenho uma maratona inscrita apenas para abril agora e por hora quero apenas descansar. Estou incrivelmente bem e inteiro. A vontade de ir para a rua correr é imensa, mas só 10k domingo que vem em uma prova já em São Paulo que farei curtindo a prova. Será o recomeço lento. Sem corrida desenfreada por baixar tempo.
Em tempo, me perguntam o que faço profissionalmente. Sou músico.
Os textos anteriores sobre como cheguei na maratona se encontram percorrendo o blog (assim como o da São Silvestre).
Demetrius Carvalho Written by:

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