Volta da Pampulha

 

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Volta da Pampulha é uma prova sem grandes complicações técnicas, apenas a distância de 18k pode ser um obstáculo se você não está acostumada com ela. Na prova em si, nada diferente de outros anos. Apenas um odor mais forte da lagoa em virtude da forte chuva que revirou aquilo literalmente antes dos competidores partirem, então vamos à experiência pessoal mesmo dessa prova.

Chegamos no dia anterior para a retiradado kit que foi no mineirão. Rápida, tranquila e sem fila. Tradicional feira de expositores onde não vi nada demais, mas também não senti falta de nada. Na verdade, não tenho muito mais paciência de ficar olhando…

De madrugada, já dormíamos para a prova quando despertamos 1h30 da manhã. Uma chuva torrencial que me fez questionar se seria possível sair pela manhã para correr a volta da Pampulha. De toda forma, o relógio estava programado para 5h e ainda chovia quando tocou. Quando nas imediações chegamos, ainda caia algumas gotas, mas ela nos deu uma trégua para a corrida, o que de certa forma, serviu apenas para dissipar as fortes temperaturas que acontecem nesse período.

Eu encontraria um casal de amigos e a ideia inicial era que eu corresse com ele, enquanto sua namorada corresse com a minha. Eu queria correr com a faca nos dentes para marcar tempo mesmo visto que a Volta da Pampulha é completamente plana, mas como não conseguimos encontrar eles, resolvi que correria com ela com o pé alto e estaria apenas dando incentivo para ela que estava apreensiva com a primeira vez com a distância de 18k (quase uma meia maratona).

Um ponto que podemos classificar como negativo dessa prova, é o seu apelo Globo/comercial. Assim temos uma prova entupida que é difícil desenvolver velocidade de início, mas dentro do pace dela, conseguimos desenvolver.

Eu previa algo em torno de 1h50, mas chutei 2h00 para lhe tirar qualquer pressão e saímos bem dentro dessa estimativa. Um primeiro sinal de que algo pudesse acontecer deu-se no quilômetro 6 quando ela pede para antecipar uma cápsula de cafeína programada para o quilômetro 9. Não questionei, mas abri os olhos procurando possíveis sinais.

No quilômetro 12, pude perceber que ela já esboçava um maior esforço para correr e disse que do quilômetro 13, que ela devesse ficar em silêncio, controlar a respiração e “descansar” até o 14 (sim, quem corre grandes distâncias sabe o que é descansar em uma prova) e se isso sofresse resultado, ela poderia acelerar que eu acompanharia seu ritmo.

Enfim, chegamos no quilômetro 14 e ela acelerou. Sinal de que o descanso havia sortido efeito e ela se sentia bem, mas talvez tenha acelerado demais para um pouco de distância ainda considerável e logo mais a corrida entraria para a história das minhas corridas inesquecíveis (e só quem acumula uma série de corridas para saber que detalhes te marcam para a vida).

Numa espécie de sprint final, ela praticamente “queimou” toda a energia que lhe sobrava e chegando no quilômetro 16 seu rendimento despencou e ela quis parar. Tentando incentivar, não a deixei parar.

– Vai no trote mas não para!

– Não consigo!!!

O terror lhe tomou e ela chegou a colocar as mãos nos ouvidos gritando, mas trotando por uns 600 metros. Não parou.

Eu, obviamente lembrava que ela havia alcançado já a sua maior distância percorrida e isso pesava para os 2 últimos e infindáveis quilômetros mas ao longe já era possível ouvir o som da linha de chegada. Era nada mais nada menos do que David Bowie. Temos um gato chamado Bowie por causa dele.

– But I try nos cantava o anjo de olhos coloridos e eu cantei junto com toda a força que eu podia para que talvez eu pudesse ajudar com uma energia extra. Não sei se ela percebeu, mas a corrida que eu estava correndo por correr, me emocionou e molhou meus olhos nesse momento.

Aos poucos ela foi recobrando a calma e a respiração e vendo a chegada se aproximar de seus olhos e daí a gente sabe como é. Ninguém mais larga o osso e ela foi contagiada novamente pelo ar nos pulmões, pelas pessoas incentivando na linha de chegada e na música que já era alta e penetrante no momento.

– I feel good cantava agora o anjo negro e ela viu um senhor na casa dos seus 60 anos ensaiar alguns passos de James Brow em sua frente e parece ter se sentido bem também. Não tinha como eu não me lembrar da minha chegada na maratona de Buenos Aires e a sensação que lhe é descarregada sobre seu corpo.

Faltava poucos metros e ela acelerando, eu não sabia mais se ria ou se chorava. 400 metros, 300 metros, 200 metros e um outro senhor na casa de 60 anos desaba na nossa frente. Titubeei entre ajudar esse senhor e cruzar com ela a linha de chegada, mas ela passou, 150 metros, 100, ritmo constante e eu olhando para trás para o senhor e vi que nada mais no mundo a iria parar e então eu voltei para socorrer o senhor que se machucou na queda, mas, também não ia largar o osso.

Um outro rapaz o amparou de um lado e eu do outro e cruzamos os 3 juntos até que eu saísse novamente correndo para que eu pudesse encontrar com ela que parecia extasiada mas não deve ter percebido meus olhos marejados outra vez.

Me voltei ao senhor que mancava, mas parecia bem e nos despedimos.

Ela não parava de falar e pular de alegria com o feito e eu confesso que jamais imaginei que essa edição da Volta da Pampulha fosse o que foi para mim. Correr é marcar a alma…

Em relação a prova, nada demais, nem de menos. Água em quantidade apropriada e pronto. Sem isotônico ou fruta, mas nada que complique seu feitio. Ela na verdade é um excelente teste para quem almeja maiores distâncias (ou que queira parar por ela mesmo). Ah!!! A água despejada por uma senhora nos corredores através de sua mangueira também foi importante para um dia tão quente…

 

Demétrius Carvalho Written by:

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