Janela da Alma

Eu não sei como você consegui entrar dentro de minha cabeça ou já não sei se estou apenas delirando, afinal você saber que tem apenas 7h30 e meia de vida não é a melhor sapiência a se ter. Como eu sei que me falta esse tempo? Bem, depois de 12 anos aqui, você aprende a saber as horas nos dias de céu aberto com a luz que se faz lá fora. E faz mais ou menos meia hora em que a enfermeira veio me pingar colírios nos olhos. Na verdade de hora em hora vem uma e passou a ser muito fácil saber o tempo. Agora deve ser 8:30h da manhã e está tudo acertado para os aparelhos serem desligados 16:00h.

Meu pai faleceu no acidente e minha mãe, apesar de algumas fraturas, sequer perdeu a consciência. Sei que fiquei em coma induzido por dois meses e meio e de alguma forma voltei, mas essa volta nunca foi completa. Fico aqui parado na cama. Eternamente parado e não consigo mover um músculo que seja. Por isso as enfermeiras precisam passar para me colocar colírio nos olhos. Eles estão eternamente abertos, mas eu não consigo nem escolher para onde olhar. Enquanto minha mãe estava viva, pude perceber ela envelhecer na minha frente por esses 12 anos. Ela continuava linda, mas era de uma beleza melancólica e solitária, mas foi a única que me tratou com total respeito por todo esse tempo. As vezes colocava música para tocar e ficava tricotando, as vezes conversava comigo mesmo sem obter respostas e acho que as vezes ela cochilava sentada ao meu lado, mas eu não conseguia olhar para ela. Só a janela, ali, parada. Ah… My funny valentine do Chet Baker era a música favorita dela e não sei de fato se é a música que mais gosto, mas foi a que mais ouvi nesse período com ela por aqui e acho que acabou virando a minha música preferida. My funny valentine, minha namorada engraçada… eu ficava procurando entre as enfermeiras quem poderia ser My funny valentine.

Podia ter sido a Ruth. Aquele par de tetas que surgiam em minha vista quando ela vinha colocar o colírio, mas depois eu notei que era a mais fria de todas. Robótica. Sei lá o que ela pensava de mim. A dona Lurdez era tipo aquela mãezona, a Cristiane era a mais divertida de todas. Era engraçada, estava sempre sorrindo e contando piada. Diziam que ela estava sempre perfumada, mas eu não sentia o cheiro de nada. Eu escuto e vejo apenas e ficava buscando minha namorada com os olhos, mas só a janela estava lá. Teve umas que eu não lembro do nome nesse período, ou por fazer tempo, ou por não me atraírem, ou por que eram dessas sem maiores tentativas de interatividade e teve a Clara. Essa me chamava de gatão e mandava eu me levantar. Na verdade, eu penso que todas as pessoas achavam que eu não tinha consciência alguma do que estava acontecendo ao meu redor, por isso a Clara ficava fazendo e falando as coisas que falava. Eu queria muito poder simplesmente voltar ao normal quando ela estivesse naqueles dias mais.

– E aí gatão, que tal colocar esse pau para funcionar e vir aqui cuidar de mim? Só eu que cuido de você. Vocês homens são tão egoístas as vezes.

Ela falou essa frase com algumas variações algumas vezes e as vezes dava para ver que ela havia olhado para onde meu Pênis deveria estar e sim, embora nem sentisse, deu para ver seu braço deslocando-se até ele alguma vezes. Fisicamente, não sentia nada. Pelo menos externamente, mas mentalmente era o ápice da sexualidade durante esses 12 anos. Em pensamentos, comi-a muitas vezes e em sonhos também. Sempre ali naquele quarto. Com aquela janela olhando para mim, para nós, para My funny valentine, mas ela me soprava um vento gélido também. Normalmente eu sentia frio nos sonhos. Aqui na vida real? Nem frio, nem calor, nem nada mais. A Ruth também freqüentou meus pensamentos e sonhos e devo admitir que ela era até mais atraente, mas sei lá, a Clara era My funny Valentine.

Um dia ela simplesmente se foi. Sumiu. Parou de aparecer aqui. Quis satisfações, quis que minha mãe resolvesse isso, mas ao fim, tive que me acostumar com a perda da minha namorada e fui desfilando flertes entre as enfermeiras que apareciam. Visitas, tirando as da minha mãe que eram mais do que regulares, uma ou outra para lá de esporádica e não se repetiam. Era um amigo do tempo de escola, outra vez uma amiga da minha mãe, um primo distante, um outro que estava adulto e lembro de quando era criança e o Tomás apenas me lembro de ter repetido sua passagem por aqui. Foram 3 vezes e uma vez ele colocou um som para tocar que me interessou, mas isso já se fazem alguns anos e não faço a menor idéia de que banda era. Pouco provável que eu descubra nessas próximas horas.

Esse barulho na porta, esse tempo que passou… deve ser o colírio. É… eu estava certo, mas eu já to indo quase embora e faz dois dias que só me aparecem enfermeiros no lugar das enfermeiras e esse ainda com essa camisa meio aberta. E eu olhando para aquele peito cabeludo sem sequer poder escolher. Minha janela era absurdamente melhor do que aquele peito. Até mesmo por que ela virou o meu caleidoscópio com suas cores, nuvens e um avião perdido que passava vez por outra. Raríssimas vezes, um passarinho pousava na janela. Isso era a segunda coisa mais legal depois de minhas namoradas.

Não sei quanto tempo passaria ainda aqui, mas a morte de minha mãe parece ter selado a minha também. Inicialmente eu estranhei ela passar tanto tempo sem vir aqui e um dia apareceram uns parentes que eu nem sabia quem era, mas que deu para entender que agora era eles que respondiam por mim. Puta que pariu. É foda. Não sei nem quem são e agora depois de 4 meses sem a minha mãe, decidiram que vão desligar os aparelhos. Tudo bem, pode ser que eu passasse mais 30 anos aqui e uma hora desejasse mais do que tudo morrer, mas alguém chega,

decide por você e ainda tem hora marcada? A única coisa boa que esses parentes desconhecidos fizeram foi me apresentar uma nova cantora que gostei bastante. Jessica Lea Mayfield ou algo do tipo. De resto? Sacramentaram a minha morte. Você acha isso justo? Podia avisar esse povo que tenho plena consciência de tudo que está acontecendo ao meu redor, que quero a Clara de volta, que quero que o Tomás me diga que banda é aquela, que coloquem Chet Baker freqüentemente para que eu possa ouvir. Peço algo demais?

Sobrou-me apenas a melancolia e a janela. Ela passou a ser a minha namorada e o meu ponto de fuga. Agora saio correndo dessa cama mentalmente com freqüência e saio voando por essa janela. Quase sempre chorando, as vezes com raiva, mas sempre sentindo os cabelos esvoaçantes soprando-me na cara, mas o frio não existe. Jogo-me pela janela buscando minha própria alma. O quarto é pequeno, estreito e nesse tempo todo, percebo as paredes mais surradas, mas tenho-as como se fossem minhas próprias cicatrizes. Acho que elas também olham para mim e pensam o mesmo. A janela é o meu complemento. Ela tem o mundo do outro lado dela e apenas eu como foco. Me desculpe se pareço falar coisas sem sentidos, mas imagine-se 12 anos, uma janela e a morte marcada. Pode me fazer um favor? Peça para colocarem My funny Valentine na hora em que eu me for…

Demétrius Carvalho Written by:

2 Comments

  1. Toni Souza
    maio 11, 2017
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    É impossível não sentir uma empatia visceral pelo personagem, já que a riqueza e a humanidade dos detalhes transporta o leitor para uma realidade que só um texto bem escrito ou a vivência podem proporcionar.

    • Demétrius Carvalho
      maio 11, 2017
      Reply

      Vindo de alguém com tamanha sensibilidade como você… fico feliz meu caro…

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