Para um mundo imposto, um mundo oposto

Para um mundo imposto, um mundo oposto. O que significa essa expressão?

É uma expressão que eu cunhei e que tenta expressar de forma curta, direta e objetiva a minha tentativa de me livrar de desconfortos que passei a ter com o mundo a certa altura da vida e de alcançar algum nível de liberdade e emancipação, criando condições para uma vida com mais sentido, menos sujeita à reprodução e manutenção do estado de coisas (status quo) que nos é imposto. Um dia percebi que não conseguiria me livrar desse mundo imposto o confrontando e que qualquer tentativa de resistência que fosse meramente reativa e ressentida, do tipo “ó vida, ó azar!” estaria fadada a reproduzi-lo. Então entendi que seria preciso empreender um combate diferente, de uma resistência, sim, mas que fosse propositiva e criadora de alternativas. Que aquele mundo imposto precisava, na verdade, ser substituído por um mundo oposto. A questão dos resíduos orgânicos do modo de vida urbano ilustram bem isso. Toda a cadeia produtiva e de distribuição altamente insustentável que conhecemos, faz com que comida vire lixo a todo instante, em todo lugar. Isso é um contexto macro completamente impossível de ser alterado por mim que mal dou ordens no meu contexto micro. Então o que fazer? Romper. Sair disso. Parar de alimentar mecanismos que transformam comida em lixo e passar a adotar mecanismos que transformem lixo em comida. Assim se constroem outros modos de produzir, de habitar, de comer, de conviver, etc. E foi dai que cunhei o primeiro uso dessa expressão, dizendo que “Num mundo imposto, comida vira lixo. Num mundo oposto, lixo vira comida. Para um mundo imposto, um mundo oposto!”

E de onde veio esse teu desconforto com o mundo?

Talvez seja preciso contar uma história. Eu cresci num sítio. Vivi lá dos 5 aos 28 anos. Era um bairro mais remoto de sítios e chácaras, um pouco mais afastado do grande comércio de Fortaleza. Hoje, obviamente, foi engolido pelo tal progresso! Mas foram 23 anos vivendo ali num contexto de espaço, pé no chão, balanço de árvore, frutas no pé, bichos soltos, assando castanha, jogando bila (bola de gude), pegando bicho de pé, caindo de bicicleta, descobrindo a rua, amigos na vizinhança, namorada, banda de rock, etc. Quando fiz 26 anos eu queria casar, ter uma casa e desisti de tentar ganhar a vida com as habilidades que havia acumulado (principalmente com música). Então comecei a me “capacitar” para virar mão de obra do mercado. Aos 28 anos eu estava empregado numa multinacional na área de TI, onde passei exatos 10 anos. Foi o meu primeiro emprego e espero tenha sido o último. Quando você entra numa multinacional, vira imediatamente alvo de estratégias de persuasão que têm por finalidade levar você a abraçar como suas, metas que são da empresa. Assim você passa a vida toda voluntariamente motivado e produtivo. E esse processo de estabelecimento de metas tem uma pergunta clássica que você precisa responder todo ano: “Onde/como você quer estar em 5 anos?”. Ora, passados os primeiros 5 anos, eu percebi que algo estava errado. Aquele “onde/como” de 5 anos atrás não havia chegado e, pior, estava 5 anos mais longe! Devagar, fui me dando conta de que existe nesse mundo um ciclo desgraçado de aprisionamentos que se retroalimentam e nos engolem. E não importa em qual deles caimos, como se retroalimentam, qualquer um deles se encarrega de nos conduzir a todos os outros. Então, desde que nascemos e por todas as instituições pelas quais passamos (sobretudo na escola), somos alvo de uma produção de carência e de falta que produz em nós desejos insaciáveis, que buscam ser satisfeitos pelo consumo de necessidades desnecessárias, que só podem ser acessadas pelo dinheiro, que só pode ser conseguido pelo emprego, que nos retira a habilidades necessárias para empreender a própria vida. E esse processo produz em nós mais carência e vazio, que produz mais desejo insaciável, que tenta ser satisfeito pelo consumo de mercadorias, que são intermediadas exclusivamente pelo dinheiro, que só pode ser conseguido vendendo a vida. E, assim, de vazio em vazio, de desejo em desejo, de tentativa em tentativa de aplacar isso por meio consumo, tudo o que fazemos é vender a vida inteira e esperar receber o direito de gozar dela no final, quando não formos mais produtivos! Ora, quando essa estratégia dá certo (trocar a vida pelo fim da vida), ela já é uma tragédia! Agora imagina se ela é interrompida no meio!? Bom, eu havia me percebido como alvo disso tudo e o nível de incômodo já atingia os meus ossos. Nesse tempo, o meu filho estava prestes a nascer, e eu, no processo de compreensão, lendo e vendo tudo o que era possível, me deparei com dois documentários que retratavam como esse modo de vida desgraçado atingia crianças filhas de pais assim, como eu viria a ser: ocupados e sem tempo para os filhos, para a casa, para a vida! Como a vida daquelas crianças era completamente terceirizada e como estavam sujeitas a toda sorte de destruição, pois já eram vítimas da propaganda que produzia nelas desejos insaciáveis e lhes persuadia a saciar cada um deles pelo consumo desenfreado fossem de alimentos ou de parafernálias industrializadas que lhes destruia a vida, a saúde e a paz. Ora, o meu filho seria fatalmente uma criança como aquelas dos documentários. E isso sem dúvidas, pois eu já era um pai como aqueles! Então, nesse ponto, ou eu fazia alguma coisa para tentar minimizar o mal que eu faria ao meu filho, ou eu enlouqueceria. A trilha sonora nesse tempo era “Ouro de tolo”: “…Eu devia estar contente porque tenho um emprego, sou o dito cidadão respeitável e ganho quatro mil cruzeiros por mês…”. Essa é a origem do desconforto!

Podemos dizer que é antes de tudo um posicionamento político? E por falar em política, como vê a política brasileira atual?

Sem dúvida! O posicionamento que adotei foi o de tentar dar à minha vida outro governo, a passar a atender anseios por mais vida, não por menos. Produzir as condições necessárias à vida é fazer política, mas micro-política. Eu tenho aversão a essa política macro, que já nasce macro e se impõe aos nossos níveis privados de vida. Isso é política de Estado. É uma criação que mais se vale da vida do que serve a ela. E ai não importa a cor da bandeira! É óbvio que é possível descer a esse nível para julgar se o partido da bandeira azul é mais danoso do que o partido da bandeira vermelha, mas penso que seja latir para a árvore errada!

Você procura levar um estilo de vida onde desenvolve-se certos ofícios em um misto do lúdico versus procura em contrapartida de um serviço sistemático defendido pelo atual governo por até 12 horas diárias e por 49 anos. Um aposentadoria com idade mínima de 65 nos. O que pensa disso?

Eu não sei se existe um estilo de vida aqui no que faço. Uma coisa que persigo é um nível de emancipação sempre maior. E ai abraço tudo o que possa me conferir algum nível, por menor que seja. Hoje, vivemos num lugar um pouco mais afastado da agitação de Fortaleza. Vivemos do nosso pequeno sítio chamado Theophilândia e de tudo o que conseguimos realizar aqui com as habilidades adquiridas nos últimos 5 anos, nesse processo de tentar construir uma vida alternativa, sem emprego. Então aqui lido com agricultura, agroecologia, permacultura, crio galinhas, peixes, zeramos o lixo orgânico da cozinha, realizo oficinas onde ensino a fazer tudo isso, faço pães por encomenda e pizzas para a vizinhança aos fins de semana, etc. Cansa? Claro. Cansava menos sentar no trono de um departamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar? Sim. Se dá pra viver bem com isso? Defina “viver bem”. Se for conforto financeiro, ele nunca existiu. Já se “viver bem” for produzir sentidos para a vida e fazer a vida ter sentido, não só dá pra viver bem, como é impossível não viver bem. E o cansaço de hoje é aquele que o velho John Seymour chamou de cansaço saudável…que passa com o sono. Bem diferente do cansaço da alma quando percebe que tudo o que faz é trocar a vida pelo fim da vida! 

Você tem sido procurado por meios de comunicação para falar sobre o seu modo de vida ou sobre as oficinas que promove como de reciclagem de lixo doméstico e embora uma exposição dessa possa trazer benefícios financeiros, você tem sistematicamente negado o contato de alguns meios. Por que?

Primeiro que essa exposição não traz benefício financeiro nenhum. Ao longo de 6 anos, quase 600 pessoas vieram nas oficinas que realizo e, pasme, nenhuma veio por ter visto uma matéria de tv ou jornal impresso! A imprensa, de modo geral, trabalha como numa linha de produção. Existe a indústria da notícia. Os caras têm metas a cumprir! Existe produtividade! A gente só entende isso quando vira notícia. 90% das vezes em que sou procurado para mostrar o que faço, não há interesse nenhum nos conteúdos. O interesse é tão somente preencher a pauta do dia da equipe de reportagem que já está aflita achando que não vai conseguir. E o que acontece é que o envolvimento deles com o assunto costuma ser nulo e o que vai ao ar é uma caricatura grotesca e superficial exibida em 30 segundos. E é frustrante ter gasto tempo e dedicação em vão, para engrossar o angú da indústria da notícia! É claro que há excessões. Já houve matéria de tv, jornal impresso e trabalho acadêmico muito bem feito. Mas hoje, como já conheço, identifico isso pelo telefone mesmo e já rejeito quando não vale a pena. É fácil saber, pois sempre querem a matéria para ontem e sempre cometem a indecência de sugerir que a matéria vai ser importante pra mim pela visibilidade! Só não é pior porque é engraçado! rs

Se alguém te pedisse um conselho de como tornar melhor a sua vida, o que diria?

Definitivamente eu não sei. Isso não é coisa que cabe num conselho.

E se te perguntassem quem é Hugo, que diria?

Quando eu sai do mercado de trabalho há 1 ano e meio, tratei de fazer um anti-currículo para ver se o mercado me esquecia. Então elenquei algumas habilidades que eu havia tratado de adquirir para viabilizar essa “nova vida” e escrevi isso que passei a usar quando vou dar oficinas ou palestra em algum lugar e querem escrever algo sobre mim.

Hugo Lucena Theophilo é aprendiz de jardineiro, padeiro, pizzaiolo, entusiasta da agricultura doméstica, dono de casa, marido da Vanessa e pai do Caio.
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Demétrius Carvalho Written by:

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