A controversa Marina Abramovic

Engraçado que nesse novo mundo pós internet, o pop passa literalmente pelas grandes redes e algumas pessoas atingem um público de uma forma diferente de décadas atrás. Quando comecei a pensar em Marina para escrever, em minha cabeça quis traçar analogias para melhor situar essa artista que não é unanimidade, mas que te faz pensar. A pessoa que pensei foi filósofo Slavoj Zizek, Eslovêno, ex Iugoslávia. Ele um filósofo pop que é parado na rua para dar autógrafo. Marina nasce também na ex Iugoslávia, mas na Sérvia. Ela poderia ser mais pop? Não tenho dúvidas a respeito, mas como um filósofo, ela está ali para te fazer pensar e já teve artistas do mundo pop do calibre de Jay-z e Lady Gaga em busca de aulas com ela para enriquecer o seu envolvimento com o público.

Ela se considera a avó da performance nessa modalidade artística um tanto quanto nova e por muitas vezes controversa. Existe uma infinidade de trabalhos dela na internet e se sua curiosidade aguçar, siga em frente. Hoje eu me prendo apenas ao que está sendo veiculado no Sesc Pompéia e em específico à vivência do “Método Abramovic”.

Existe uma exposição aberta ao público no qual logo você vai perceber o quanto a obra dela é feita para te fazer pensar, te tirar da zona de conforto e não é exatamente feita para ser bonita. Fazer pensar, questionar inclusive ela mesmo talvez seja o seu forte e assim fui para a vivência do “Método Abramovic” após saber que existia fila desde 5 da manhã para ver sua palestra 13:00h, mas vamos ao que interessa. O “Método Abramovic”.

Ao todo, sua experiência levará cerca de 2h30. A sua primeira experiência é assistindo um vídeo on de uma séria de exercícios são propostos para abrir a sua percepção do mundo ao redor. Dali até o final do método, ninguém fala mais nada. Os exercícios trabalham com uma certa oxigenação que pessoas despreparadas podem se sentir mal. Alías, embora não tenha percebido ninguém passando mal, o papo que corria entre os que participavam da vivência era que no dia anterior teve gente que saiu antes da conclusão da vivência. Eu para ser sincero, não tinha medo da parte física, mas da psicológica.

Ao fim desse vídeo e dos exercícios, o grupo é dividido entre 4 subgrupos. Cada participante recebe um fone de ouvido com uma certa pressão que tem a função de vedar o som ao redor e te isolar ainda mais. Daí para a frente, você vai passar por 4 vivências. Caminhando, deitado, sentado e em pé e a ordem vai depender do grupo que você pegou.

O meu grupo foi para as cadeiras com os cristais cravados. Meia hora ali. Explorei a textura de tais materiais e prestei atenção em meu campo visual dos outros 3 grupos, mas para a mente agitada das grandes cidades, isso acontece rapidamente, então a dificuldade de manter-me parado. Simplesmente isso. Resolvi fechar os olhos e olhar para dentro de mim até a hora apontada pelos monitores para seguir para o próximo grupo.

Fui então para o grupo da caminhada, mas não é uma simples caminhada. Em meia hora, você deve andar uns 40 ou 50 metros. Para eu que corro, andar tão lentamente é surreal, mas em passos em “câmera lenta”, você consegue pensar em muita coisa entre um passo e outro e perceber a relação de seu corpo nesse processo. Você é capaz de sentir o seu ponto gravitacional mudando,  e com minha mania de corredor, experimentei diferentes passadas no período. A única coisa que eu fazia era tentar ter um movimento equilibrado. Quase como um exercício de pilates, eu tentava entender o meu corpo e me realinhar.

A próxima meia hora foi deitado em uma cama também de madeira e cristais. Achei que poderia cochilar ali deitado, mas pude perceber inclusive o movimento lento das nuvens através de uma janela na cobertura do Sesc. Depois, fechei os olhos, me entreguei ao relaxamento e ao tempo dado a mim mesmo para relaxar. Entendo que cada um deva acabar tendo uma experiência única e diferente. Ela te propõe um encontro com você. Quase meditativo e religioso. Entendo que muita gente possa achar aquilo uma completa perda de tempo, assim como algumas pessoas podem sentir algo quase transcendental.

Na minha quarta e última experiência, toda a calma me foi roubada, afinal ficar meia hora em pé em uma pequena plataforma de madeira com 3 lanças de cristal apontado para você não é a coisa mais confortável do mundo. Inicialmente estava eu outra vez sentindo a textura da madeira e cristal, mas depois de uns 5 minutos… ficar de pé… Ocorreu-me algo que eu realmente não esperava. Eu tenho dores por correr e uma dor crônica em meu tornozelo direito pode de uma hora para outra simplesmente me afastar dessa atividade física. Aula de pilates tem sido feita para que eu possa minimizar esses problemas. Minha fisioterapeuta insiste que eu jogo mais peso para o lado direito do corpo causando esse desequilíbrio. Penso nisso cada vez que estou correndo e não conseguia concordar muito. Andar os 30 minutos também me fez refletir sobre aquilo, mas enfim, ali, parado, descobri que quando em pé, apoio sim do lado direito. Isso me foi uma descoberta monstruosa e fascinante de alguma forma. Passei o resto do tempo tentando equilibrar o peso e tentando entender qual a razão para eu fazer isso. A resposta? A música….meu pé direito é a minha base quando toco e vai saber quantas horas nessa minha vida toquei…

Acredito que essa experiência pode não representar absolutamente nada para algumas pessoas. Algumas como relatado, não vão sequer aguentar fisicamente, mas algumas pessoas podem simplesmente achar chato, desinteressante, tedioso e acho que de fato pode ser. Depende da entrega de cada um. Eu que fui com a expectativa não tão alta assim e mais “querendo ver para crer”, descobri esse desequilíbrio corporal graças a vivência, então, serei eternamente grato e provavelmente me lembrarei por muito tempo disso.

No final das contas, é um tempo em que você da para você mesmo para se conhecer…

Eu me conheci….

Demetrius Carvalho Written by:

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